Poucos rótulos clínicos servem tantas vezes de insulto. Chamar paranoico a alguém, numa conversa vulgar, quer dizer que essa pessoa exagera e que se pode deixar de a ouvir. A perturbação paranoide da personalidade designa coisa bem diferente: uma desconfiança duradoura quanto às intenções dos outros, na qual palavras ou gestos vulgares são lidos como possíveis ataques, enganos ou traições. Não há ruptura com a realidade, e a intensidade varia muito de pessoa para pessoa, tal como de período para período.
O que abrange o diagnóstico
Fala-se de perturbação da personalidade quando um modo duradouro de perceber e de se relacionar, instalado desde o início da idade adulta, se encontra na maioria das situações e tem um custo: no trabalho, na amizade, na relação amorosa.
Na personalidade paranoide, esse modo incide sobre as intenções dos outros. A questão de fundo não é o que foi dito, é o que se visava por trás. Um atraso, uma resposta seca, uma reunião para a qual não se foi convidado: cada elemento recebe uma leitura, e essa leitura pende para o lado da hostilidade.
O diagnóstico não se faz, portanto, nem sobre um episódio, nem sobre um período difícil. Sair de uma traição real, de um despedimento brutal ou de uma relação em que se era vigiado produz uma vigilância que se parece com o quadro aqui descrito sem o ser. É também preciso ter afastado outras causas: uma perturbação psicótica, uma doença neurológica, uma substância. Nenhuma ficha, incluindo esta, substitui esse percurso.
Como se manifesta a desconfiança
As manifestações descritas são bastante constantes, mesmo que ninguém as apresente todas.
- A dúvida quanto à lealdade das pessoas próximas, dos colegas, do companheiro ou da companheira, sem qualquer elemento que a justifique.
- A relutância em confidenciar, com receio de que uma informação venha um dia a ser usada contra si.
- A leitura de sentidos ocultos em observações ou acontecimentos anódinos.
- O rancor duradouro: as afrontas, incluindo aquelas que o outro nunca teve consciência de cometer, não se apagam.
- O contra-ataque rápido quando um desprezo é percebido, por vezes antes de qualquer verificação.
- A suspeita recorrente quanto à fidelidade de quem se ama.
O que esta lista não diz é o custo interior. A vigilância permanente é esgotante, e enganar-se também o é: descobrir depois que se cortou uma relação por causa de uma hipótese falsa deixa uma mistura de alívio e de vergonha. Muitas das pessoas em causa conhecem este ciclo e receiam-no. A desconfiança sobe quando falta sono e quando o ambiente se torna realmente instável.
Três palavras que se confundem
A desconfiança vulgar não é uma perturbação. Toda a gente suspeita de alguém um dia, e muitas vezes com razão.
O delírio paranoide é ainda outra coisa. Pertence ao campo psicótico: a convicção é inabalável, resiste a qualquer prova em contrário e pode tornar-se inverosímil. Na perturbação paranoide da personalidade, a interpretação mantém-se plausível, incide sobre factos reais mal lidos, e a dúvida pode por vezes ser reaberta, ainda que dificilmente. Esta distinção tem consequências práticas: o acompanhamento não é o mesmo.
A esquizofrenia é um diagnóstico distinto. A proximidade das palavras na linguagem corrente alimenta uma confusão tenaz, incluindo na ideia feita mais dispendiosa de todas: a que associa desconfiança e perigosidade. O rótulo não prevê violência. Prevê sobretudo relações que se quebram e uma relutância em pedir ajuda.
O que está estabelecido, o que está em debate
A descrição clínica é antiga e estável. O resto nem por isso.
As estimativas de frequência variam muito consoante os métodos utilizados, ao ponto de nenhum número único merecer ser citado. Uma parte dessa incerteza deve-se à própria perturbação: raramente se consulta por desconfiança, uma vez que a desconfiança também abrange quem trata.
A própria categoria é discutida. A CID-11 abandonou os subtipos de perturbações da personalidade a favor de uma descrição por grau de gravidade e por dimensões de traços, enquanto o DSM-5 conserva a categoria: consoante o referencial, o mesmo perfil recebe portanto um nome diferente. Debate-se também o seu eventual parentesco com o espectro da esquizofrenia.
Uma última questão merece ser colocada com franqueza: uma desconfiança justificada não é uma perturbação. Ter sido alvo de assédio no trabalho, pertencer a um grupo realmente discriminado, ter crescido num ambiente violento produz uma vigilância adaptada ao contexto. Um diagnóstico que ignora a história de vida não é um bom diagnóstico, e os diagnósticos de personalidade serviram, historicamente, para desacreditar pessoas.
O que ajuda e o que não ajuda
Nenhum medicamento trata este modo de funcionamento enquanto tal. Pode ser proposto um tratamento para uma ansiedade ou uma depressão associadas, o que não é a mesma coisa.
O acompanhamento assenta sobretudo na psicoterapia, com um paradoxo assumido: exige uma confiança que é precisamente o ponto difícil. O que a torna possível depende muitas vezes de pormenores do enquadramento: transparência, nenhuma surpresa, a possibilidade de dizer que se discorda sem que a relação se parta.
Discutir o conteúdo de uma suspeita para provar que é falsa raramente leva a algum lado. Trabalhar sobre o seu custo é mais praticável: o que a verificação consome de tempo e de energia, e o que traz realmente. O progresso mede-se então em rupturas evitadas, mais do que numa mudança de carácter. Nenhum prognóstico individual se deduz de um rótulo.
... e a vida amorosa
O que ajuda quem partilha a vida é muitas vezes menos espectacular do que se imagina: a previsibilidade. Dizer para onde se vai, com quem, a que horas se volta, sem esperar pela pergunta. Responder sem se melindrar. E sobretudo renunciar às meias verdades destinadas a não inquietar: são elas que, uma vez descobertas, alimentam a suspeita que queriam evitar.
Há um limite útil de conhecer. Tranquilizar acalma, provar não acalma por muito tempo: os rituais de prova, o telemóvel mostrado, o horário justificado, tendem a subir o nível de exigência em vez de o baixar. Vale mais uma informação dada de antemão do que uma verificação obtida à posteriori.
O rótulo não prevê nem o ciúme nem o controlo. A desconfiança torna certas situações mais dispendiosas, não torna a relação impossível, e muitas pessoas aprendem a reconhecer as suas próprias subidas de suspeita antes de agir sobre elas. O ciúme e o controlo continuam a ser comportamentos: discutem-se, limitam-se, e uma vigilância que se instala ou um isolamento progressivo não são sintomas a acomodar, mas um problema de relação que pede um olhar exterior.
Quanto ao momento de falar disso, não existe regra. Bastante cedo, e sem fazer disso uma confissão solene: dizer que a dúvida chega depressa e que incide sobre as intenções, não sobre o valor do outro. Um exemplo concreto vale mais do que uma definição, e nomear o que acalma evita ao outro ter de adivinhar.