Uma porta que bate, um prato pousado numa bancada, uma gargalhada num corredor de azulejos: sons que quase toda a gente ignora e que, para algumas pessoas, chegam como uma agressão. A hiperacusia designa esta intolerância a sons de intensidade banal, vividos como demasiado fortes e por vezes dolorosos. O paradoxo que a torna difícil de explicar cabe numa frase: a audição medida pode ser perfeitamente normal.
O que abrange a hiperacusia
A hiperacusia não é um ouvido demasiado fino, no sentido de captar coisas inaudíveis para os outros. É um problema de tolerância, não de acuidade: o limiar a partir do qual um som se torna insuportável desce, enquanto aquele a partir do qual é ouvido permanece no lugar. O volume ambiente de um supermercado ou de um escritório aberto transforma-se num ambiente hostil.
Os clínicos distinguem muitas vezes várias facetas que se combinam. Algumas pessoas descrevem uma intensidade percebida desmesurada: o som é identificado corretamente, é apenas forte demais. Outras relatam uma verdadeira dor auditiva, uma queimadura ou uma pressão no ouvido, seguida por vezes de várias horas de sensibilidade acrescida. Outras ainda vivem antes de mais uma angústia ligada ao som. Estas categorias ajudam a falar do assunto, mas a sua delimitação exata continua discutida.
Acompanha frequentemente um acufeno, ao ponto de os dois serem muitas vezes avaliados em conjunto.
Hiperacusia, misofonia, fonofobia: três coisas diferentes
É a confusão mais espalhada, e muda a orientação: estes três termos descrevem experiências distintas, que podem coexistir na mesma pessoa.
- A hiperacusia diz respeito ao volume. O que causa problema é a intensidade percebida, seja qual for a fonte: um autoclismo, um motor, uma porta, uma voz.
- A misofonia diz respeito a sons precisos, muitas vezes humanos e repetitivos como a mastigação ou o fungar, independentemente do volume. Um som muito fraco pode aí desencadear uma reação intensa de raiva ou de nojo.
- A fonofobia é um medo do som, uma ansiedade de antecipação que leva a evitar os locais mesmo antes de qualquer exposição.
Uma quarta noção baralha ainda mais a leitura: o recrutamento, em que a sensação de volume sobe demasiado depressa, associado a certas perdas auditivas. Visto de fora assemelha-se à hiperacusia, mas inscreve-se num contexto de surdez, não de audição normal. Só uma avaliação permite separar as coisas.
De onde vem, e o que continua em debate
A hiperacusia é um sintoma, não uma explicação em si mesma. Observa-se após um traumatismo acústico ou craniano, no quadro de certas afeções do ouvido interno, da enxaqueca, de paralisias faciais, e é frequente em pessoas autistas, onde faz parte de uma hipersensibilidade sensorial mais ampla. Alguns medicamentos são igualmente apontados, e uma parte das situações fica sem causa identificada.
A hipótese mais discutida é a de um ganho central: o próprio sistema auditivo amplificaria o sinal, como um aparelho cujo volume tivesse sido aumentado, para compensar uma entrada sonora empobrecida. Dá conta de muitas observações, entre elas o agravamento pela sobreproteção, mas não de tudo, em particular das formas dolorosas, onde uma lesão mais periférica é também equacionada. O mecanismo não está decidido, e nenhum modelo reúne consenso.
Duas ideias feitas merecem ser afastadas. A primeira conclui, a partir de um audiograma normal, que não há nada: o audiograma mede o que se ouve, não o que se suporta. A segunda arruma o problema do lado do carácter, falando de suscetibilidade. A reação não é escolhida, e tratá-la como um traço de personalidade sobretudo atrasa o acompanhamento.
O que procura uma avaliação audiológica
Passar por um otorrinolaringologista ou por um audiologista serve antes de mais para afastar outras causas e situar o problema. A avaliação combina em geral um exame do ouvido, um audiograma, a pesquisa de um acufeno e uma entrevista detalhada sobre as situações em causa.
A medição dos limiares de desconforto é uma ferramenta corrente, mas exige prudência: desconfortável por definição, os seus resultados variam consoante o método usado e não substituem a descrição feita pela pessoa. Questionários validados completam muitas vezes o quadro.
Sobre o que ajuda depois, mais vale ser honesto. As abordagens de exposição sonora progressiva enquadradas, associadas a um acompanhamento psicológico quando a evitação já se instalou, são as mais utilizadas e as mais bem documentadas. Os resultados são reais mas variáveis, e nenhum protocolo se improvisa a partir de uma leitura na internet: uma exposição mal doseada pode agravar, em particular nas formas dolorosas. Esse ajuste pertence a um profissional.
A armadilha da proteção permanente
Uma proteção dirigida em ambientes realmente fortes é legítima: um concerto, uma obra, certos transportes. O que põe problema é o uso contínuo em locais banais. O ouvido recalibra-se sobre um silêncio artificial, a tolerância desce ainda mais, o que leva a proteger-se ainda mais. Este círculo está bem descrito, e é um dos raros pontos em que os clínicos concordam largamente.
O quotidiano pede portanto outra coisa que não abafar tudo: escolher as horas de menor afluência, preferir os locais com cortinas e toalhas de mesa em vez do azulejo nu, sentar-se longe das colunas e prever tempos de recuperação em calma em vez de encadear. Muitas pessoas descobrem que a verdadeira variável é a duração da exposição, e não apenas os picos.
... e a vida amorosa
O risco principal, num casal, é que o ruído se torne o assunto permanente. Cada saída transforma-se numa negociação, e a pessoa em causa acaba por se sentir na posição de estragar a festa: aguenta em silêncio e depois cancela.
O que ajuda é quase sempre logístico antes de ser emocional. A escolha do local pesa mais do que a boa vontade: uma sala que absorve o som e um horário calmo mudam um serão inteiro. Combinar antecipadamente que se pode sair apanhar ar sem que isso seja um drama permite muitas vezes ficar mais tempo, e não menos. A outra pessoa pode também assumir a parte social de uma sala ruidosa: pedir, relançar a conversa, resumir o que acaba de ser dito.
Em casa, alguns acordos concretos valem mais do que princípios: avisar antes de ligar um aparelho ruidoso, decidir em conjunto um volume por defeito, reservar uma divisão calma. Nada disto exige que o parceiro se torne o guardião do silêncio, um papel que esgota e desequilibra a relação.
Por fim, o rótulo não prevê nem a sociabilidade, nem o gosto pela música, nem a vontade de sair: muitas pessoas com hiperacusia gostam do som e sofrem por serem privadas dele. Para falar disso basta nomear uma necessidade concreta, e mais vale fazê-lo antes da saída do que durante, quando já é tarde para mudar de sala.