Um abraço que acalmava ontem pode ser demasiado apertado hoje. O perfume habitualmente agradável pode tornar-se invasivo após um dia ruidoso. Um beijo pode ser desejado, enquanto a sensação de uma barba, de um tecido ou de uma luz forte torna o momento impossível.
A sobrecarga sensorial no casal é frequentemente mal interpretada. A outra pessoa ouve "não te quero", quando o sistema nervoso diz "não consigo processar mais uma sensação". O tema diz respeito tanto às pessoas autistas como aos perfis hipersensíveis na relação. Colocar esta diferença em palavras protege a intimidade em vez de a arrefecer.
Os sentidos não funcionam com um volume fixo
As pessoas autistas podem apresentar sensibilidades sensoriais particulares. Algumas sensações são percebidas como muito intensas, outras como insuficientes, e o perfil varia de pessoa para pessoa. O mesmo mecanismo aparece muitas vezes em pessoas com alta sensibilidade ou com TDAH. A Casa do Autismo lembra que estas particularidades podem influenciar a vida afetiva e sexual.
O limiar também pode mudar consoante:
- a fadiga e a falta de sono;
- o stress ou um conflito recente;
- o calor, a dor ou a fome;
- um ambiente já ruidoso;
- a acumulação de contactos sociais;
- o carácter previsto ou imprevisto do toque.
Uma pessoa pode gostar de ser abraçada quando escolheu ser abraçada e pode reagir com surpresa se o mesmo gesto lhe for feito por trás. O contexto e o controlo percecionado são tão importantes como a sensação em si. Quando a acumulação dura semanas, o limiar de tolerância pode desabar de forma duradoura, por vezes até ao burnout autista.
Recusar o toque não significa recusar o afeto
Em muitos casais, o contacto físico serve para acalmar, reparar um conflito ou demonstrar amor. Se um dos parceiros não o receber no momento em que o outro precisa dele, ambos podem sentir-se rejeitados. Quando a isso se junta uma forte sensibilidade à rejeição, o mal-entendido instala-se em poucos segundos.
Ajudar a separar três mensagens:
- "Não quero este contacto agora";
- "Não quero contacto físico hoje";
- "Não quero proximidade contigo".
Estas frases não dizem a mesma coisa. Uma formulação precisa evita que o cérebro complete automaticamente com a mais dolorosa. Quando a alexitimia já dificulta identificar o que se sente, essa precisão exige tempo e não tem nada de capricho.
Por exemplo: "Amo-te e quero ficar perto de ti, mas a minha pele não aguenta um abraço agora. Podemos sentar-nos lado a lado?"
Criar um mapa sensorial para dois
Faça este mapa sensorial fora de um momento íntimo ou de uma crise. Para cada sentido, anote o que é agradável, variável ou difícil:
- toque: pressão leve ou profunda, zonas sensíveis, duração, temperatura das mãos;
- som: música, respiração, ruídos externos, necessidade de silêncio;
- luz: intensidade, cor, possibilidade de apagar;
- cheiro: perfume, produtos, comida, detergente;
- textura: lençóis, roupa, cabelo, barba;
- movimento: ficar imóvel, embalar, caminhar lado a lado.
Adicione os sinais precoces de sobrecarga: irritabilidade, dificuldade em falar, gestos repetitivos mais intensos, necessidade de fugir ou sensação de dor. Estes sinais passam muitas vezes despercebidos porque o masking os cobre até ao último momento. Este mapa não é um contrato definitivo. Oferece um vocabulário para rever.
A nossa página sobre o transtorno do processamento sensorial apresenta de forma mais ampla as diferenças no processamento dos estímulos, e os nossos questionários de auto-observação dão um ponto de partida quando faltam referências.
Pedir consentimento de forma simples
O consentimento não mata a espontaneidade. Uma pergunta pode ser delicada: "queres um abraço apertado ou apenas a minha mão perto de ti?", "posso beijar-te?", "queres continuar?". Esta forma explícita de perguntar vai ao encontro do que ajuda de forma mais ampla a comunicar com um parceiro autista.
Considere também sinais de paragem fáceis quando uma frase se torna difícil: uma palavra, um gesto ou uma pressão na mão para desacelerar ou parar. O parar deve ser respeitado imediatamente, sem amuos nem negociação. Para quem recebe estímulos a mais, impor limites continua a ser muitas vezes a parte mais custosa da troca.
A ausência de resposta, o bloqueio ou um shutdown não constituem consentimento. Se não tem a certeza, pare e volte a confirmar mais tarde, quando a pessoa puder comunicar livremente.
A intimidade não é a quantidade de contacto suportada. É a segurança com que cada um pode dizer sim, não, menos, diferente ou não agora.
Preparar o ambiente sem medicalizar o desejo
Algumas adaptações sensoriais podem libertar a atenção:
- luz mais suave;
- janela fechada ou ruído de fundo regular;
- lençóis e roupa escolhidos pela sua textura;
- produtos sem perfume;
- temperatura ajustada;
- tempo de desconexão antes da proximidade;
- possibilidade de fazer uma pausa sem interpretação negativa.
Estas não são preliminares obrigatórias para todas as pessoas autistas. São opções a experimentar. A investigação qualitativa sobre intimidade física em adultos autistas realça precisamente a diversidade de experiências e a importância de poder identificar e comunicar as suas necessidades sensoriais.
Se os sons comuns se tornam fisicamente dolorosos, a hiperacusia merece uma avaliação à parte. E quando o espaço é partilhado de forma permanente, estes ajustes negoceiam-se logo no momento de viver juntos.
Multiplicar as formas de proximidade
A intimidade pode passar pelo toque, mas também por uma atividade partilhada, uma conversa escrita, uma presença silenciosa, uma refeição preparada em conjunto ou a troca de um objeto significativo.
Crie um menu de ligação:
- ver um episódio sob dois cobertores separados;
- andar sem obrigação de falar;
- ler cada um do seu lado na mesma sala;
- enviar uma música ou uma nota vocal;
- cozinhar com tarefas claramente distribuídas;
- colocar uma mão perto sem tocar.
Outras ideias de encontro tranquilo funcionam tão bem em casa como fora. Esta diversidade evita que uma recusa de abraço feche todas as possibilidades de ligação.
Quando a outra pessoa também sente falta
Respeitar uma recusa não obriga a negar as próprias necessidades. A pessoa que aprecia o contacto pode expressar a sua tristeza sem culpabilizar a outra: "o toque ajuda-me a sentir proximidade. Gostava que encontrássemos momentos ou formas que funcionem para ambos".
A solução não pode ser a coerção nem o apagamento permanente das necessidades de uma pessoa. Um terapeuta de casal ou profissional de sexologia com formação em autismo e consentimento pode ajudar quando as necessidades parecem incompatíveis ou o tema causa sofrimento duradouro.
Às vezes a diferença não vem da sobrecarga mas de uma orientação própria, como a assexualidade ou a demissexualidade. Confundir as duas faz perder muito tempo a ambos os parceiros.
Se a sobrecarga resultar em meltdowns ou shutdowns no casal, também trabalhe nos sinais precoces e na recuperação. Para sons muito específicos, o artigo sobre misofonia no casal oferece referências distintas.
Fontes e referências
- Casa do Autismo: vida afetiva, sexual e particularidades sensoriais
- Estudo qualitativo sobre intimidade física e relações de adultos autistas
- Relatos autistas sobre particularidades sensoriais, sexualidade e relações
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